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PM dá aula de como viver na cracolândia a moradores da região

oucos têm um apartamento com vista tão privilegiada na capital paulista quanto a cozinheira Karen Viana, 29, e o entregador de gás Amauri Alves, 31: assim que abrem a janela, no 13º andar, veem do alto a estação de trem Júlio Prestes, prédio tombado de 1938 que abriga também a Sala São Paulo, espaço nobre de música clássica.

"Você tem que ver de noite", diz Amauri sobre a iluminação externa do prédio no centro.

Lá embaixo, centenas de dependentes químicos usam e vendem drogas a céu aberto. Com frequência, entram em atrito com a polícia, e o gás lacrimogêneo das bombas lançadas pelas forças de segurança sobe até seu apartamento.

Eles, que antes moravam em uma invasão em Itaquera (zona leste), vivem atualmente em um dos prédios populares construídos pelo governo paulista em plena cracolândia e conciliam o bônus da casa própria com o ônus de viver em uma área degradada e palco de conflitos constantes.

Para acostumar os novos moradores à região, assistentes sociais trabalham com os moradores e houve até palestras com a Polícia Militar.

"Eles falam que é um projeto que vai tirar a cracolândia daqui", diz Karen. "A palestra foi para dizer que a segurança iria aumentar na região, mas daquele jeito, né", conta, antes de dizer que acordou na madrugada desta quinta (16) com uma gritaria na rua porque um morador do prédio foi assaltado. "Saí de casa para trabalhar às 6h30 com medo."

"Tem muita polícia aqui, mas eu me sinto insegura, não ando de bolsa, não falo no celular", afirma. No grupo de Whatsapp do prédio, conta, os moradores que saem de casa cedo até organizam comboios para andarem juntos.

O governo de São Paulo ergueu na cracolândia cinco prédios populares, com 914 apartamentos no total, e pretende construir mais três (mais 288 apartamentos). O complexo Júlio Prestes, fruto de uma parceria público-privada, é vitrine do candidato à presidência Geraldo Alckmin (PSDB).

Dois dos prédios começaram a receber moradores em junho –167 chaves foram entregues . Os selecionados, por sorteio, estavam na fila da habitação, com exigência de ter um membro da família trabalhando no centro e renda familiar de até seis salários mínimos –o financiamento das moradias é subsidiado, e os moradores pagam prestações de até R$ 1.717 ao mês (o valor é proporcional à renda).

Muitos apartamentos, no entanto, ainda estão vazios. Quem vive lá fala em mais da metade desabitados. E mesmo quem se mudou relata receio com a vizinhança nova.

No governo de São Paulo, a resistência à mudança já era esperada quando os projetos foram elaborados. Oficialmente, a Secretaria da Habitação, hoje sob gestão Márcio França (PSB), diz que o processo de aprovação da documentação e do financiamento dos apartamentos demanda tempo e que a ocupação acontece de forma contínua.

A expectativa é de que todos os prédios estejam ocupados até o fim do ano. "À medida em que mais famílias ocuparem as torres, o próprio uso dos espaços públicos do entorno pelos residentes deverá gerar um processo de transformação da região", diz o governo.

Dilan Farias, 22, foi sorteado com um apartamento no 1º andar e ainda não teve coragem de se mudar. "É uma conquista, mas é bem de frente para a rua. Estou vindo semanalmente para me habituar."

Faz uma semana que o professor de educação física Weder Pires, 32, mora lá. "Eu fiquei com medo no primeiro dia que vim ver o apartamento e dei de cara com a cracolândia. Meu mundo era para lá, nunca tinha lidado com essa realidade", conta ele, que só tira o celular do bolso depois que se afasta do prédio.

Amauri brincava nesta semana com os dois filhos na praça Júlio Prestes, recém-reformada. O local é gradeado, vigiado por um segurança, e a entrada é por uma porta de frente para a estação, onde ficam carros da PM e da GCM (Guarda Civil Metropolitana).

"É bom para os meninos", diz o entregador de gás. "Acho que o povo tem medo de vir para cá. Mas não tem motivo, o problema é quando tem confusão com a polícia mesmo", afirma ele. "Quando vejo muita polícia assim, pode saber que vai ter alguma coisa."

Ele mostra à reportagem um vidro no térreo do prédio em que mora trincado: uma pedra foi lançada do lado de fora, diz. Também relata que às vezes lançam sacos com fezes.

O carroceiro Bié, 58, que há mais de 20 anos frequenta a cracolândia, diz que a relação com os novos moradores é boa. "Estão se mudando agora, e a gente ajuda a carregar as coisas. Na mudança também sobra muita caixa de papelão, que a gente recicla", afirma. O problema mesmo, diz ele, são os seguranças das obras, por vezes intransigentes.

O local é um canteiro de obras, onde, além dos prédios, haverá uma escola de música, creche, mercado e lojas. Por enquanto, há tapumes e cercas de arame farpado. O projeto do governo é que aquela seja uma área aberta à circulação, sem separação da rua –o que é visto com receio por parte dos novos moradores.

"As características e conceitos originais do projeto serão concretizados assim que a implantação, como um todo, estiver concluída e a segurança dos moradores, garantida. Trata-se de um processo de implantação de longo prazo", afirma o governo.

A região passa por outras mudanças. Uma quadra foi demolida para dar lugar à nova sede do hospital estadual Pérola Byington, prometido para 2021. A prefeitura planeja uma PPP com moradia popular, creche e CEU (Centro Educacional Unificado).

 

Com informações da Folhapress.


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Antônio Guimarães
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