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Dieta especial pode reduzir em até 50% ataques de epilepsia grave

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Machado de Assis, Fiódor Dostoiévski, Van Gogh, Danny Glover e Prince não tinham apenas a fama como fator em comum. Todos eles sofriam com epilepsia. “A doença não impede que os portadores tenham uma vida plena e, inclusive, se sobressaiam na sociedade. Mas o pior dos problemas ainda é o preconceito”, afirma a neurologista infantil da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Laura Guilhoto.

Se o paciente tomar os remédios todos os dias, não só durante os episódios, e dormir bem — já que a privação de sono é um dos disparadores das crises — ele pode ter uma vida normal. Porém, Laura explica que cerca de 30% dos pacientes não conseguem controlar as crises mesmo com o devido tratamento. Esta é a epilepsia refratária. Nestes casos, o paciente precisa buscar outros tipos de tratamento, como a dieta congênita.

— Um terço das epilepsias são de forma refratária. A dieta cetogênica pode ser indicada nestes casos, mas não é para todo mundo. A dieta não é um tratamento alternativo, mas sim um método com acompanhamento médico de um neurologista e nutricionista.

A dieta cetogênica deve ser usada por, no máximo, três anos e pode ajudar o paciente a diminuir a frequência das crises ou até se livrar delas e ser considerada curada, segundo a neurologista.

— Para a organização mundial de epilepsia, a doença é considerada resolvida quando o paciente não tem mais crises por um período de dez anos.

Remédio para tratar epilepsia é incorporado no SUS

De acordo com a nutricionista do ambulatório de dieta cetogênica do Hospital São Paulo, Marcela Gregório, entre 15% e 20% dos pacientes conseguem a remissão total das crises; outros 50% diminuem a frequência pela metade.

— Quando comemos qualquer tipo de nutriente, o alimento é digerido no estômago, absorvido no intestino, metabolizado no fígado e no cérebro. Em pacientes com epilepsia refratária, o consumo de carboidratos pode ser um disparador para as crises.

A dieta cetogênica exclui a maioria dos carboidratos e prioriza as proteínas, as frutas e as gorduras. Os pacientes costumam utilizar nas receitas muitos alimentos ricos em gorduras, como creme de leite, maionese e óleos vegetais para não perderem peso, explica Marcela.

— Desta forma, os níveis de colesterol acabam elevados. Não tem como evitar. Por isso compensamos com outros alimentos saudáveis.

A dieta deve ser supervisionada por um nutricionista, que vai calcular as quantidades ideias de cada alimento para o paciente. Em casa, os ingredientes devem ser pesados rigorosamente, por isso é necessário ter bastante disciplina. Além disso, conforme o paciente avança com o tratamento, a dieta muda as proporções dos alimentos.

Entenda a doença

A neurologista Laura Guilhoto explica que a epilepsia é uma doença em que há perturbação da atividade das células nervosas no cérebro, causando as crises. A forma mais comum de crise é a convulsão, mas os episódios podem se apresentar de formas diversas, dependendo da região afetada no cérebro.

— Acontecem várias ligações elétricas entre os neurônios no cérebro. No epilético, a atividade cerebral se transforma e se comporta de forma anormal de tempos em tempos, ocasionado a crise. Se o problema for na região que controla a mão, por exemplo, a pessoa não vai conseguir comandar esse membro por um tempo, que vai se comportar de forma involuntária. 

Estima-se que a doença atinge 2% da população mundial. No mundo inteiro, são 50 milhões de pessoas, sendo 4 milhões no Brasil, segundo a ABE (Associação Brasileira de Epilepsia). Sem tratamento e sem diagnóstico, o paciente tem medo de falar que tem a doença.

— Muitas vezes, o epilético esconde que tem a doença com medo de sofrer preconceito, para não ser tratado de um jeito diferente.

Ainda segundo a neurologista, a convulsão é o tipo de crise mais conhecido da população em geral, em que a pessoa fica rígida, se debate, às vezes perda a urina, e fica caída no chão. Mas há outras formas de a doença de apresentar. 

— Existem inúmeras outras formas de crises porque isso depende de cada área do cérebro que se origina. Às vezes, a pessoa tem um déjà vu (como se já tivesse estado naquela situação), que indica que a área afetada está relacionada à memória. Ou quando a pessoa tem a sensação de estar lugar desconhecido, mesmo que seja em casa. Ou então crianças na fase escolar, em que em algum momento ela para de prestar atenção, pisca e volta ao normal.

A crise cessa após alguns segundos, seguida de confusão mental. Se a pessoa não voltar ao normal ou tiver várias crises consecutivas — os que os médicos chamam de estado de mal epilético — ela deve ser levada para o hospital. Laura ainda ressalta que qualquer pessoa pode ter uma crise epilética e, não necessariamente, ter a doença.

— Uma pessoa que inalou gás tóxico, inalou inseticida no campo de forma inadequada, ou teve desidratação pode sofrer uma crise. O epilético é aquele que tem crises recorrentes sem fator desencadeante externo.

A neurologista reforça que qualquer ser que tenha cérebro — inclusive animais — pode sofrer com epilepsia, mesmo que não tenha desenvolvido a doença na infância, já que o distúrbio pode ser congênito ou adquirido.

— A maior parte dos casos descobertos na infância são decorrentes de alterações ocorridas durante a gestação, como mutação genética, uso medicamentos inadequados ou álcool. Já nos casos em que a doença é adquirida, pode acontecer de a criança ter uma infecção bacteriana, por exemplo, como meningite, que pode resultar em um abcesso cerebral — infecção confinada a uma área restrita — e ter uma epilepsia refratária. Ou encefalite [inflamação no cérebro], trauma de crânio ou até mesmo AVC (Acidente Vascular Cerebral), que ocorre bastante em idosos.

A epilepsia não é hereditária, mas existem poucos relatos de alterações genéticas mais raras, em que várias pessoas da mesma família desenvolvem a doença, como em qualquer outra enfermidade, explica Laura.

Dá para ter vida normal

De acordo com a neurologista, o diagnóstico da epilepsia é clínico e feito por meio de conversas para se conhecer a história do paciente e das crises. Além disso, os médicos utilizam o eletroencefalograma, que é um aparelho que mapeia as atividades cerebrais, para complementar o diagnóstico.

A cura da epilepsia existe em alguns casos. Quando a doença é causada por alguma cicatriz no cérebro, por exemplo, o paciente pode fazer cirurgia. Mas o procedimento é bem invasivo, diz Laura. “Tem que abrir o crânio e ressecar a região afetada. Com a remoção do problema, o paciente pode deixar de sofrer com as crises".

“O que basta é se respeitar”

O escritor Eduardo Caminada Júnior, de 46 anos, sabe bem o que é viver com epilepsia de difícil controle desde os três anos. No decorrer da vida, ele já passou por diversos tratamentos com diversas drogas e terapias, mas ainda não conseguiu o controle absoluto da doença. Porém, nada disso o impediu que ter uma vida normal.

— Já usei quase todos os medicamentos disponíveis para epilepsia. Eu fiz a dieta quando era bem pequeno, mas os resultados não foram os esperados porque eu estava internado. Mas agora a minha médica me recomendou que eu volte a fazer a dieta cetogênica.

Caminada se formou em matemática e física, é pós-graduado em estatística e já deu aulas. Ele também já foi casado e tem uma filha de 12 anos. Para ele, o pior da doença é o preconceito.

— Tive muitos momentos de revolta. Mas a minha mãe sempre dizia que eu poderia fazer tudo o que eu quisesse. Teve uma época na infância em que eu tinha muitas crises e, mesmo assim, a minha mãe me levava para a escola. O papel dela foi muito importante para mim.

Após ser mandado embora de dois empregos por passar mal durante o expediente, ele decidiu compartilhar sua trajetória no livro Viva com Epilepsia. Ele confessa que o fato de ter o distúrbio é limitante às vezes, mas que todos nós temos limitações.

— Eu não sou a epilepsia, mas ela faz parte da minha vida. Não tenho como negar isso. Eu respeito o meu tratamento e as minhas limitações, e sigo adiante. O pior preconceito que existe é o preconceito contra nós mesmos. A minha vida se tornou muito melhor quando eu parei de lutar contra a epilepsia e passei a lutar pela minha vida, que é muito maior que isso. O que basta é se respeitar.

 

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